Patriotas, apátridas e patriotadas
Todo ano de Copa do Mundo é a mesma coisa. Empolgação e mobilização que beiram as raias do irracional, festa, alegria, futebol, aulas e grande parte das atividades profissionais suspensas nos dias das partidas do Brasil. Isso e um mau humor daqueles se que sentem sufocados pelo que um amigo meu chama de "febre da amarelinha".
Sim, eu visto a camisa da seleção brasileira em dias de jogos e acho bonito ver como o país se une num só coração quando os nossos representantes entram em campo para defender as cores do Brasil. Do Brasil? Também. Mas não podemos esquecer que acima de tudo a seleção não passa de um time de futebol. Não é a própria pátria de chuteiras, como diziam os antigos cronistas.
A mídia nos massacra com um discurso da mais pura patriotada infame, tentando nos fazer acreditar que tudo no Brasil é mais belo, que todos admiram a ginga e o talento brasileiros, que o futebol é a nossa redenção. Menos, Galvão, muito menos. Afinal se fazemos parte do G7 do esporte mais popular do mundo, nosso país não se beneficia como nação disso.
A paixão enlouquecida dos brasileiros pela seleção gera o tal mau humor que, por sua vez, origina raciocínios que considero exagerados. "Vou torcer contra o Brasil porque não aguento esta patriotada". "Enquanto esse povo torce no futebol, verdadeiro ópio do povo, os políticos fazem a festa em Brasília". "Se o Brasil ganha a Copa, ninguém mais lembra dos escândalos, tudo vira festa e nada mais pode ser feito. O atual incumbente da presidência vai se aproveitar da vitória e faturar a eleição".
Ópio do povo? Ainda isso? Acho que não podemos misturar alhos, bugalhos e migalhas. Os políticos não precisam da Copa ou do carnaval para fazerem a festa em Brasília. Até porque, eles, como brasileiros, também meio que tiram folga nestas épocas. Eles fazem a festa durante o ano "letivo" mesmo. Na nossa cara, cada vez com menos vergonha. As pessoas se cansam dos escândalos porque eles são explorados pela mídia de forma vergonhosamente eleiçoeira. E a ilação de que vencer a Copa do Mundo dá ao presidente (safado por costume, como pensamos sempre dos poderosos no Brasil em qualquer época) o caminho aberto para vencer as eleições simplesmente não se sustenta. Lembre-se que o titular do Planalto em 2002, quando fomos pentacampeões de futebol não fez o seu sucessor em 2002. Da mesma forma, a derrota para a França em 1998 não fez de FHC um fracasso eleitoral, muito ao contrário.
Futebol é futebol. Carnaval é carnaval. E mais nada. Uma competição esportiva e um folguedo popular, com diversas formas de expressões país afora. Ambos são elementos intrínsecos à cultura brasileira e não deveriam ser atacados, como se fossem aleijões. O que é ser brasileiro? Odiar carnaval e curtir toda a brasilidade do rock'n'roll, do techno, do hip-hop? Torcer o nariz para o verde-amarelo durante a Copa e votar nulo na eleição?
O brasileiro precisa formar sua identidade cultural, definir o que é ser brasileiro, de preferência da forma menos preconceituosa ou colonizada o possível. Precisamos disso para sermos viáveis como nação. Em vez de achar ruim o povo parar para ver um jogo de futebol, porque não tentamos buscar uma forma de canalizar toda esta paixão pelo país para que se manifeste também em outros campos da nossa vida? O que tem de errado em carnavalizar o mundo? Por que não incorporar a raça, a ginga, a criatividade, a eficiência, a magia a todas as nossas atividades?
Vencer ou perder a Copa do Mundo não tem rigorosamente nada a ver com nossa deficiência em educação, essa sim a verdadeira vilã do atraso cidadão do nosso povo. Suspender o trabalho por até sete meio expedientes a cada quatro anos para celebrar o amor à seleção não nos vai fazer mais pobres, mais ou menos produtivos.
E além do mais, países mais e menos desenvolvidos do que nós também vivem clima de Copa do Mundo. Basta ver as cenas na Coréia, na Alemanha, os debates em torno de futebol na Costa do Marfim. A Copa tem audiência cumulativa de 32 bilhões de espectadores. Feitos os devidos descontos dos desvios estatísticos isso deve dar algo em torno de 3 em cada 5 habitantes da terra assistem a pelo menos um jogo de Copa do Mundo. E nós somos apenas 180 milhões. Então o mundo todo enlouqueceu? Não. Apenas devemos levar menos a sério as coisas.
Não precisamos ser apátridas para combater as patriotadas. Sejamos patriotas. Na Copa do Mundo, no Carnaval e no resto do ano também. Essa é a verdadeira atitude!


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